Os afastamentos do trabalho por burnout aumentaram 823% no país nos últimos quatro anos, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social. Para o psiquiatra Rodrigo Azevedo, membro da Coordenação de Atenção à Saúde do Trabalhador do Estado da Bahia e fundador do Canal de Psicoeducação, o crescimento está ligado tanto ao reconhecimento mais preciso da síndrome quanto à deterioração das condições de trabalho.
Como a síndrome se manifesta
O burnout não corresponde ao cansaço comum depois de uma jornada intensa. Segundo Azevedo, trata-se de um processo crônico de esgotamento relacionado à maneira como as tarefas são organizadas, distribuídas e cobradas nas instituições. A Organização Mundial da Saúde estrutura a síndrome em três dimensões.
A primeira é a exaustão física e emocional profunda, que não desaparece após um fim de semana ou férias curtas. Alterações no sono, dores musculares tensionais, dor de cabeça e queixas gastrointestinais podem acompanhar esse quadro. A segunda é a despersonalização, marcada pelo distanciamento afetivo e por uma postura mais fria ou defensiva nas relações profissionais. A terceira é a baixa realização profissional, com percepção persistente de que o esforço não tem valor, além de frustração, sentimento de incompetência e perda de sentido no trabalho.
Entre os sinais iniciais estão queda de concentração, lapsos de memória recente, irritabilidade, procrastinação, atenção excessiva às notificações profissionais fora do expediente e dificuldade incomum para realizar tarefas antes simples. A recomendação é buscar suporte especializado antes que o desgaste avance.
Tratamento depende de mudanças no trabalho
A recuperação pode envolver diferentes abordagens, e não apenas medicamentos ou psicoterapia. O trabalhador também pode incorporar atividade física, lazer e convivência social à rotina, de modo que o trabalho não ocupe todo o dia.
A psicoterapia é considerada fundamental por Azevedo, especialmente para ajudar a pessoa a observar a situação com maior distanciamento e tomar decisões. A medicação, por sua vez, não atua diretamente sobre o burnout, mas pode tratar consequências como transtornos depressivos e ansiosos.
O médico afirma que a condição pode ser reversível, mas ressalta que o tratamento precisa incluir a revisão da organização do trabalho. O retorno ao mesmo ambiente e à mesma carga sem ajustes pode favorecer um novo episódio de burnout.
A permanência em um ambiente estressor pode produzir efeitos duradouros, como transtorno depressivo de difícil controle, abuso ou dependência de álcool e outras substâncias. Também pode elevar o risco de acidentes de trabalho e de doenças cardiovasculares. Em situações de desesperança intensa, há possibilidade de ideação suicida e suicídio consumado.
Fatores de risco e causas organizacionais
As primeiras descrições do fenômeno envolveram profissões de cuidado intenso, como profissionais da Saúde, professores, assistentes sociais e policiais. Atualmente, a síndrome também atinge setores financeiro, de tecnologia da informação e de teleatendimento, além de trabalhadores submetidos à gestão algorítmica ou à precarização, chamada de uberização.
Azevedo rejeita a ideia de que o burnout seja resultado de fragilidade individual. Características como perfeccionismo e alto engajamento podem modular a resposta, mas também podem ser exploradas pela organização do trabalho, que passa a impor mais cobrança e responsabilidades.
Entre os riscos psicossociais estão a sobrecarga contínua, a falta de autonomia, a ausência de reconhecimento, o enfraquecimento das redes de apoio, a sensação de injustiça nas decisões gerenciais e o conflito entre os valores do trabalhador e as exigências da empresa.
Diagnóstico e aumento das notificações
Na CID-10, o burnout era associado à codificação Z73.0, descrita como “estado de esgotamento”. Com a CID-11, em vigor desde 2022, a síndrome passou a ser delimitada de forma específica como fenômeno ocupacional.
De acordo com o psiquiatra, essa definição facilitou o diagnóstico por médicos e peritos previdenciários e ajudou a reduzir a subnotificação. A atualização da Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho, por meio da Portaria GM/MS nº 1.999/2023, também reforçou o vínculo entre transtornos mentais e organização do trabalho.
Além desses fatores, Azevedo aponta a intensificação do trabalho mediado por ferramentas digitais, a hiperconectividade, a vigilância eletrônica, a precarização dos vínculos e a perda da separação entre tempo de vida e tempo de produção como elementos associados ao salto nas notificações.








