Especialistas e representantes do espiritismo alertam para possíveis fraudes em cartas psicografadas e para os impactos que esse tipo de prática pode causar em pessoas que enfrentam o luto. Eles afirmam que a psicografia realizada de forma séria pode oferecer conforto, mas ressaltam a necessidade de cautela na busca por esse atendimento.
Dados pessoais levantam suspeitas
O escritor e pesquisador espírita Pedro Camilo investiga casos suspeitos e aponta como sinais de atenção a coleta de informações antes da sessão e o intervalo longo entre o primeiro contato e a entrega da carta. Segundo ele, esses dados podem ser usados para pesquisar a vida da pessoa e de parentes mortos em bancos de dados disponíveis na internet.
Relatos de pessoas atendidas por Maira indicam que era necessário fazer uma inscrição com antecedência. Cerca de 60 dias antes da sessão, o participante precisava informar o nome completo e o CPF de quem receberia a carta e do acompanhante. Pessoas de outras cidades também precisavam apresentar informações adicionais, como o nome completo, sem abreviações, e comprovantes de hospedagem ou de passagem aérea.
Os especialistas ouvidos diferenciam esse procedimento do trabalho atribuído a Chico Xavier. Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira, afirma que o médium recebia muitas pessoas sem ter acesso antecipado a dados pessoais, como CPF e endereço.
Efeitos sobre pessoas enlutadas
O psicólogo e pesquisador Everton Amaraldi destaca que uma eventual fraude pode afetar de maneira grave quem procura uma carta em um momento de perda. Para ele, a experiência pode levar a pessoa a questionar crenças e a visão de mundo, além de prejudicar o bem-estar e a saúde mental.
A vulnerabilidade emocional de quem busca uma mensagem de alguém que morreu torna a situação ainda mais delicada, conforme os especialistas. Jorge Hessen classifica possíveis práticas fraudulentas como estelionato por luto e pede cautela na procura por falsos médiuns.
Pesquisas tentam controlar informações
As cartas psicografadas são estudadas cientificamente no Brasil há pelo menos 15 anos. Na Universidade Federal de Juiz de Fora, o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (NUPES) pesquisa a atividade mediúnica em sessões realizadas sob condições controladas. O núcleo é liderado pelo psiquiatra e pesquisador Alexander Moreira-Almeida.
De acordo com Moreira-Almeida, os estudos selecionam médiuns que atuam voluntariamente e não recebem benefício material pelo trabalho. As pessoas enlutadas que participam não têm contato prévio com o médium, que é monitorado continuamente até a psicografia.
O pesquisador afirma que os resultados apontam para pessoas capazes de apresentar informações precisas sobre mortos sem recorrer a meios convencionais. A investigação, portanto, busca diferenciar situações com controle científico de possíveis casos em que informações pessoais tenham sido obtidas previamente.
Denúncias e preservação da atividade mediúnica
Pedro Camilo defende que suspeitas de fraude sejam denunciadas. Ele cita Allan Kardec, considerado fundador do espiritismo, e a orientação apresentada em O Livro dos Médiuns para que médiuns identificados em práticas fraudulentas sejam denunciados e desmascarados.
Os especialistas ressaltam que denúncias de possíveis irregularidades não devem ser confundidas com a atividade mediúnica em geral. Para eles, investigar esses casos ajuda a proteger pessoas enlutadas e a preservar a credibilidade de trabalhos considerados sérios.








