GOIÂNIA — A instalação do governo de Goiás na nova capital passou pela Rua 20, onde dez prédios foram concluídos durante a implantação da cidade. Um deles, no número 19, é associado pelo Centro de Informação, Documentação e Arquivo da Universidade Federal de Goiás (Cidarq) ao Palácio Provisório do Governo de Goiás, usado enquanto o Palácio das Esmeraldas ainda estava em construção.
Hoje, o imóvel abriga a Casa da Memória da UFG e da Justiça Federal. A construção reúne exposições, fotografias, documentos e móveis relacionados às duas instituições e é um dos endereços que ainda permitem reconstruir a formação de Goiânia.
Um núcleo administrativo e residencial
A Rua 20 integra o núcleo pioneiro planejado para a nova capital na década de 1930. A região próxima à Praça Cívica e às avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins concentrou repartições públicas, residências e estruturas ligadas à transferência da administração estadual.
O Cidarq relaciona o imóvel do número 19 às decisões administrativas tomadas durante a construção da cidade. Depois da fase inicial, o prédio foi ocupado pela Faculdade de Direito de Goiás. Colemar Natal e Silva, diretor da instituição naquele período, tornou-se posteriormente o primeiro reitor da UFG.
A construção também passou por diferentes usos institucionais. Entre 1969 e 1972, funcionou ali o Conservatório de Música da UFG. Em 1973, o prédio foi incorporado ao Poder Judiciário e passou a abrigar a primeira sede própria da Seção Judiciária de Goiás. O tombamento como monumento histórico ocorreu em 1982.
Há uma divergência acadêmica sobre a identificação do imóvel. Uma pesquisa da UFG indica que a construção tombada como antiga sede provisória talvez não seja o prédio original utilizado pelo governo e afirma que a sede efetiva não existe mais.
Por que a Rua 20 é considerada a primeira
Pesquisas acadêmicas e uma publicação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) apontam a Rua 20 como a primeira via de Goiânia. A referência diz respeito ao primeiro conjunto edificado da capital planejada, e não à via mais antiga do território que hoje integra o município.
A dissertação de mestrado A paisagem urbana e os seus apagamentos: um olhar sobre a Rua 20, apresentada à UFG pela arquiteta e urbanista Letícia Soares Martins Ribeiro em 2025, reconstrói as mudanças ocorridas no endereço. O trabalho identifica a rua como o primeiro conjunto arquitetônico construído da capital.
O Iphan também registra que as primeiras casas da nova cidade foram erguidas ali. Outra dissertação, apresentada à PUC Goiás por Tattiussa Costa Martins, descreve a Rua 20 como a primeira rua de Goiânia e relaciona as chamadas casas-tipo ao modelo adotado em construções posteriores.
A diferença em relação a Campinas
Campinas começou a se formar em 1810, enquanto a pedra fundamental de Goiânia foi lançada em 1933. A diferença é de 123 anos. Antes da criação da nova capital, a antiga Campininha das Flores já reunia casas, igreja, comércio, ruas e estrutura administrativa.
A residência apontada como a mais antiga ainda existente em Goiânia também fica em Campinas. O imóvel foi construído em 1925 pelo alemão Karl Bartolomeo Steger, oito anos antes da fundação da nova capital.
Por isso, a definição historicamente mais precisa é considerar a Rua 20 a primeira via construída como conjunto edificado da Goiânia planejada.
Vestígios e mudanças na paisagem
O traçado da Rua 20 permanece no Setor Central, mas a paisagem foi alterada. Casas foram substituídas por edifícios, estacionamentos e imóveis destinados a outras atividades. O artigo científico A paisagem urbana da Rua 20 em Goiânia: entre memórias, histórias, transformações e disputas, publicado em 2024 na Revista Jatobá, da UFG, identifica demolições, mudanças de uso e substituições de construções.
Letícia Soares Martins Ribeiro e Christine Ramos Mahler analisam como essas transformações modificaram a leitura do núcleo pioneiro. A pesquisa de mestrado também trata dos apagamentos da paisagem e da redução dos vestígios materiais dos primeiros anos da capital.
Entre os imóveis ainda associados à formação de Goiânia estão a Casa da Memória e a residência onde viveu Colemar Natal e Silva, que atualmente abriga a Academia Goiana de Letras. A Casa da Memória também foi analisada no artigo Do Casarão à Casa de Memória: um lugar de memória na Rua 20, publicado em 2021.
A Rua 20, portanto, preserva parte das marcas do período em que a nova capital começou a ser ocupada. Campinas reúne construções e vias anteriores, mas o endereço representa o primeiro conjunto edificado dentro do projeto urbano de Goiânia.








