Joinville, Quinta-feira, 24 de setembro de 2026
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Antiga sede da Celg é demolida após anos de disputa patrimonial em Goiânia

Edifício modernista construído entre 1956 e 1958 foi demolido em 2025, enquanto pesquisadores defendiam sua preservação.

Antiga sede da Celg é demolida após anos de disputa patrimonial em Goiânia

A antiga sede das Centrais Elétricas de Goiás (Celg), construída entre 1956 e 1958, começou a ser demolida em 17 de fevereiro de 2025. O edifício ficava na Avenida Anhanguera, no Setor Oeste, em um terreno com quase 15 mil metros quadrados. O alvará municipal havia sido concedido quatro dias antes, em 13 de fevereiro de 2025.

A construção tinha cerca de 3,8 mil metros quadrados e era associada à modernização energética de Goiás e à consolidação da arquitetura moderna em Goiânia. O conjunto reunia concreto armado, vidro, elementos vazados, jardins e espelhos d’água, além de soluções para controlar o sol e a ventilação. O projeto arquitetônico é atribuído a Oton Nascimento, e Gustav Ritter aparece relacionado ao paisagismo.

Disputa entre preservação e aproveitamento imobiliário

Documentos técnicos registraram a pressão sobre a área por causa do potencial construtivo. Os proprietários chegaram a apresentar a intenção de construir um shopping no local, enquanto pesquisadores e entidades de arquitetura defendiam a conservação do edifício. A documentação, porém, não confirma que a demolição tenha ocorrido para a execução imediata desse projeto.

Um diagnóstico de patrimônio produzido em 2009 já apontava os riscos relacionados ao aproveitamento imobiliário do terreno. Em 2019, começou a tentativa de tombamento estadual. No ano seguinte, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás levou ao Ministério Público a discussão sobre a preservação do conjunto.

Durante a tramitação do tombamento, o imóvel recebeu proteção provisória. Técnicos analisaram a arquitetura, o estado de conservação, a memória institucional e a presença de um painel de Frei Nazareno Confaloni. Em 2023, contudo, o Conselho Estadual de Cultura decidiu pelo não tombamento definitivo após a conclusão do dossiê técnico da Secretaria de Estado da Cultura.

O parecer considerou que o nível de deterioração exigiria reconstruções extensas, com possibilidade de produzir um falso histórico em vez de conservar os materiais originais. A Secretaria informou que universidades, Ministério Público, CAU e comunidade participaram das demandas de preservação. Integrantes do Conselho também afirmaram que os proprietários tinham obrigação legal de preservar o bem durante o tombamento provisório.

Arquitetura e painel de Confaloni

A antiga sede da Celg foi erguida poucos anos depois da criação da empresa, instituída em 1955. O edifício acompanhou a expansão da rede de energia e a reorganização econômica do Centro-Oeste. Sua concepção combinava horizontalidade, estrutura de concreto, grandes planos de vidro e elementos vazados para controle climático.

O interior tinha pé-direito amplo, escadas e passarelas, com integração entre os espaços internos e externos. Estudos acadêmicos da Universidade Estadual de Goiás inseriram a construção no processo de chegada e consolidação da arquitetura moderna em Goiânia, em contraste com o reconhecimento mais consolidado da arquitetura Art Déco das primeiras décadas da capital.

Em 1961, Frei Nazareno Confaloni produziu no edifício o painel “Energia elétrica: a origem, a invenção e o usufruto”. A obra tinha aproximadamente nove metros de largura e quase três metros de altura. Depois de sofrer vandalismo em 2020, foi submetida a avaliações para recuperação.

Em 2022, a Secretaria de Estado da Cultura contratou, por R$ 45 mil, uma consultoria para vistoria, análise do estado de conservação e emissão de parecer técnico sobre a restauração. Em agosto de 2023, o Governo de Goiás concluiu a transferência do painel para o Centro Cultural Oscar Niemeyer, antes da demolição da sede.

Edifício virou objeto de pesquisa e arte

Dois anos antes da demolição, quatro pesquisadores publicaram o artigo “A Ruína do Moderno em Goiânia: uma análise a partir do edifício da antiga sede da CELG”, na Revista Nós: Cultura, Estética e Linguagens, da Universidade Estadual de Goiás. Camilla Pompêo de Camargo e Silva, Marcelo de Mello, Milena d’Ayala Valva e Rangel Henrique Brandão Silva analisaram o abandono do imóvel e a perda de referências materiais da cidade.

Em 2024, pesquisadores e artistas ligados à Universidade Federal de Goiás ocuparam o prédio com o Museu do Depois do Amanhã, o Mudda. A iniciativa utilizou plantas, fungos, infiltrações, grafites e intervenções como parte da experiência artística, discutindo o processo de deterioração em vez de reconstruir uma imagem anterior do edifício.

Depois da demolição, fotografias, documentos, vídeos e fragmentos passaram a representar o imóvel. Em março de 2026, a exposição “Marcha para o fim do Oeste”, no Centro Cultural UFG, utilizou escombros da antiga sede para abordar memória urbana e demolição.

O que permanece

A Universidade Federal de Goiás catalogou 339 residências construídas entre as décadas de 1930 e 1970 em um levantamento sobre diferentes linguagens arquitetônicas. O estudo identificou nove linguagens e selecionou 180 imóveis para análise mais aprofundada.

A trajetória da Celg mostra que o reconhecimento acadêmico e o inventário não garantem, por si só, a preservação. O edifício mobilizou o CAU, o Ministério Público, universidades e órgãos culturais, entrou em processo de tombamento e, ainda assim, deixou de existir fisicamente em 2025.

O painel de Confaloni foi preservado, enquanto a construção desapareceu da Avenida Anhanguera. A intenção de instalar um shopping permanece registrada na documentação histórica da disputa, mas não há confirmação oficial de que esse seja o uso atualmente definido para o terreno. A antiga sede continua como objeto de estudos sobre a arquitetura moderna e os limites da proteção patrimonial em Goiânia.

Texto produzido pela Redação Jogo em Rede com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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