Uma família inteira podia erguer, durante a madrugada, um barracão de três cômodos na área que hoje corresponde à Vila Nova, em Goiânia. Adultos e crianças carregavam água, preparavam o barro e concluíam a construção antes do amanhecer, antes da chegada da fiscalização. Quando os fiscais apareciam, a casa precisava estar pronta e ocupada.
A cena faz parte da formação do bairro, reconstruída em pesquisas acadêmicas. Uma antiga moradora resumiu o esforço daquela época: “Parecia formiguinha trabalhando”.
Um bairro formado antes da cidade oficial
A ocupação ocorreu a leste do Córrego Botafogo, enquanto Goiânia ainda estava em construção. Operários contratados pelo Estado e migrantes de poucos recursos não conseguiam comprar terrenos nos setores formalmente urbanizados e passaram a levantar moradias em áreas ainda não parceladas.
Assim, os trabalhadores responsáveis pela construção da nova capital precisaram improvisar o próprio lugar para viver. A ocupação enfrentou tentativas de retirada e demolições, mas continuou crescendo. Em 1939, o governo estudava maneiras de urbanizar e regularizar parte da área entre a Avenida Anhanguera e a Rua 67.
A região só foi incorporada à Planta Geral de Urbanização de Goiânia em 1947. O Setor Leste abrangia áreas que hoje correspondem à Vila Nova, à Nova Vila e ao Setor Universitário. A Lei estadual nº 39, de dezembro de 1947, tratou da desapropriação de terras e estabeleceu preferência aos moradores na obtenção de títulos em áreas de Botafogo, Vila Nova e Nova Vila.
No ano seguinte, cerca de 400 lotes foram destinados à Fundação da Casa Popular. A regularização, portanto, veio depois da chegada das famílias e da consolidação da ocupação.
Moradia, praça e vida comunitária
As primeiras casas eram térreas e simples. Com o aumento das famílias, pequenos imóveis foram construídos dentro dos mesmos terrenos. Os chamados barracões recebiam filhos, parentes ou novos moradores. O bairro cresceu, mas a infraestrutura demorou a acompanhar: havia ruas sem pavimentação, falta de serviços e muita poeira.
O projeto de urbanização organizou o setor ao redor de uma praça central, de onde partiam oito vias. A estrutura reunia quadras regulares e irregulares, com poucas áreas institucionais e prioridade para a criação de lotes.
Muito antes da configuração atual, a praça recebeu partidas de futebol, brincadeiras, reuniões, comícios e apresentações de circo. Na década de 1950, uma família chegou a viver no local, onde mantinha pequenas plantações e criava galinhas e porcos.
Mais tarde, o espaço recebeu o nome de Boaventura Moreira de Andrade. Pedreiro, morador do bairro e vereador de Goiânia, ele exerceu cinco mandatos consecutivos e esteve ligado à formação do Vila Nova Futebol Clube. Boaventura morreu em 1965, atropelado quando andava de bicicleta pela atual 5ª Avenida.
Mercado, feira e mobilização dos moradores
Em 1948, mulheres da Vila Nova, Campinas, Nova Vila e Botafogo participaram de uma mobilização contra o aumento do custo de vida. Elas pediam medidas contra a carestia e a criação de armazéns municipais com preços mais acessíveis.
O Mercado Vila Nova começou a funcionar em 1957, segundo a Prefeitura de Goiânia. Um estudo acadêmico registra 1958 como ano de inauguração. Antes dele, a região já concentrava uma feira de frutas, verduras e outros alimentos. Com o mercado, o comércio ganhou um ponto fixo e passou a reunir serviços como relojoaria, chaveiro, conserto de panelas e eletrodomésticos, além de barbearias e lojas de utilidades.
Em dezembro de 2025, uma lei municipal reconheceu os mercados municipais de Goiânia como Patrimônio Cultural Imaterial.
A feira passou a funcionar na 9ª Avenida. Aos domingos, barracas ocupavam parte da rua e das calçadas, com frutas, verduras, queijos, farinhas, doces, pastel e biscoito de polvilho. Sanfoneiros também participavam do ambiente, que atraía consumidores de outras regiões da cidade.
O nome do bairro chegou ao futebol
A identidade da Vila Nova também se espalhou por meio do esporte. A origem do Vila Nova Futebol Clube está relacionada à Associação Mariana, criada em 1938 pelo padre José Balestiere para promover a convivência entre os moradores. O clube foi oficialmente fundado em 1943.
Francisco Ferraz de Lima, Boaventura Moreira de Andrade, Luiz Rasmussen, Pedro Cavalcante e o padre Balestiere estão entre os nomes ligados à formação da equipe. O clube manteve no nome a referência ao bairro de trabalhadores que lhe deu origem.
O Córrego Botafogo também marcou os primeiros limites da ocupação. Com a expansão urbana, a canalização e a construção do sistema viário no fundo de vale transformaram a paisagem e aproximaram fisicamente o bairro de outras áreas de Goiânia.
A Vila Nova, que começou com moradias improvisadas e famílias tentando permanecer no território, foi incorporada ao planejamento oficial somente depois de já ter moradores, relações de vizinhança e formas próprias de organização. Praça, mercado, feira e clube preservam partes dessa trajetória, iniciada antes do reconhecimento formal do bairro.








