O Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (IDEAS), organização social fundada em 2016 e sediada no Estreito, em Florianópolis, administra 22 unidades de saúde em cinco estados. A instituição é alvo de mais de 10 ações na Justiça de Santa Catarina por suspeitas de erro médico e já foi investigada pela Polícia Federal por suspeita de desvio de recursos públicos.
Conforme as informações divulgadas pelo próprio instituto, a rede inclui unidades em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. O perfil do IDEAS no Instagram também exibe convênios no Amazonas, Pará, Ceará e Mato Grosso.
No Rio de Janeiro, a organização mantém contratos em 11 unidades. O Ministério Público move uma ação civil pública contra o instituto por suposto benefício, sem justificativas, em contratos emergenciais que somam R$ 184 milhões em Nova Iguaçu.
Unidades administradas pelo instituto
Em Santa Catarina, o IDEAS administra o Hospital Materno Infantil Santa Catarina, em Criciúma; o Hospital de Caridade de Jaguaruna; a UPA 24h Bela Vista e o Hospital de Olhos Lions, em Palhoça; a UPA 24h Canoinhas; e a UPA 24h Central Timbó.
A lista também inclui o Hospital Regional de Toledo, no Paraná; a UPA 24h Antônio Lorenzetti Filho, em Lençóis Paulistas, São Paulo; e o SAMU São Leopoldo e a UPA 24h Scharlau, no Rio Grande do Sul.
No Rio de Janeiro, estão o Hospital Estadual Roberto Chabo, em Araruama; o Hospital Geral de Nova Iguaçu; quatro unidades em Nova Iguaçu — as UPAs 24h Carlinhos da Tinguá e Arquiteta Patrícia Marinho, além da Maternidade Municipal Mariana Bulhões —; a UPA 24h Infantil Agda Maria, em Angra dos Reis; o Hospital Regional do Médio Paraíba Dra. Zilda Arns Neumann, em Volta Redonda; o Complexo Estadual de Saúde Alberto Torres e a UPA 24h Colubandê, em São Gonçalo; o Hospital Estadual Pref. João Batista Caffaro, em Itaboraí; o Hospital Geral Dr. Luiz Pinto, em Rio das Flores; e o Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, no Rio de Janeiro.
Denúncias no hospital de Criciúma
Mães relataram mortes e sequelas após atendimentos no Hospital Materno-Infantil de Criciúma. Vanusa Biff contou que o filho Samuel, de 10 meses, foi levado à unidade com febre. O bebê tinha assaduras severas, ficou 58 dias na UTI e morreu em julho de 2023. Segundo a mãe, ele enfrentava dificuldades para respirar e comer.
Jordana morreu aos 2 anos e 7 meses depois de chegar ao hospital com febre e vômito. A mãe, Daiane Rodrigues Dias, afirmou que a filha recebeu inicialmente o diagnóstico de virose. A menina retornou à unidade após piora, teve uma complicação nos rins e precisava fazer hemodiálise com urgência, mas morreu sem acesso ao procedimento.
Outro caso é o de Dominic. A mãe, Jéssica Bruna Nunes Inês, disse que o filho chegou responsivo, brincando, sorrindo e comendo, mas deixou o hospital com sequelas. “Ele não enxerga (mais), ele só se alimenta por sonda, ele não tem nenhum movimento do corpo”, afirmou.
Andreia Cardoso também relatou a morte da filha Adrielly, de 13 anos. A adolescente foi levada ao hospital com sintomas de gripe e depois voltou a apresentar fortes dores no joelho. A família disse que ela recebeu o diagnóstico de fratura, mas posteriormente constatou-se que não havia fratura. Adrielly sofreu uma parada cardíaca e morreu por causa de uma infecção provocada por bactéria.
Contratos e investigações
O IDEAS passou a administrar o Hospital Materno-Infantil em 2018, após assinar contrato de R$ 196 milhões com o Governo de Santa Catarina. A Controladoria-Geral da União e o Tribunal de Contas do Estado identificaram indícios de irregularidades em contratações e desvios.
As investigações apontaram que sócios do instituto também eram donos de empresas prestadoras de serviços contratadas pelo IDEAS e pagas com dinheiro público. Sidney Tavares Júnior, diretor-geral de Controle Externo do TCE-SC, afirmou que relatórios de prestação de contas já indicavam possíveis problemas e que o tribunal identificou uma relação “oculta” entre os sócios e as empresas.
A Polícia Federal investigou o caso, e o IDEAS foi alvo de uma operação em Santa Catarina e no Paraná. Mesmo após a investigação e os indícios de irregularidade, o Governo de Santa Catarina renovou o contrato até 2028. O novo valor é de cerca de R$ 364 milhões.
O governo informou que a renovação teve como objetivo evitar a interrupção dos serviços à população e que os contratos podem ser rompidos a qualquer momento. Também disse que o IDEAS foi autuado por falhas na prestação de contas e que abriu processo administrativo para apurar as irregularidades apontadas.
O diretor clínico do hospital, Christian de Escobar Prado, negou acusações de erro médico e negligência. Em nota, o instituto afirmou que os casos são raros e excepcionais e que não representam falhas sistêmicas. A advogada Milene Lacerda, que representa as famílias, defendeu a fiscalização da organização.








