O cineasta Ary Rosa, co-diretor e roteirista de Todo o Sentimento, explicou como o novo filme retoma Henrique, personagem interpretado por Aldri Anunciação em Ilha. A produção de Glenda Nicácio e Rosa está na Mostra Competitiva de Longas Metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Henrique é apresentado como um cineasta amargurado, cadeirante depois de um acidente e isolado em um casarão colonial. Para enfrentar as limitações do dia a dia, ele depende da ajuda de Gustavo, vivido por Lucas Leto. A história se passa em um Brasil quase pós-apocalíptico, no qual a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023 se concretizou e uma onda de conservadorismo, preconceito e perseguição tomou conta do país.
Um personagem atravessado pelas mudanças do país
Para Ary Rosa, revisitar personagens e trabalhos anteriores é também refletir sobre as transformações do Brasil. O diretor afirmou que a trajetória iniciada com Café com Canela acompanha mudanças políticas e sociais que alteram a forma como os personagens se relacionam com a realidade.
O roteiro de Todo o Sentimento parte da ideia de que decisões tomadas em Brasília alcançam o Recôncavo Baiano, região que funciona como um microcosmo da narrativa. A partir desse deslocamento, o filme discute como acontecimentos de grande escala interferem na intimidade dos indivíduos.
Rosa também descreveu a obra como uma continuação que pode ser recebida de maneiras diferentes por quem viu ou não viu Ilha. A relação entre os filmes, segundo ele, faz parte da construção de um universo compartilhado por ele e Glenda Nicácio.
Além de Ilha, a dupla realizou Voltei! e Até o Fim. Rosa disse que alguns desses trabalhos foram feitos com recursos próprios, a partir da necessidade de filmar. O diretor associou a filmografia às questões do interior, das relações raciais, de gênero e da produção cinematográfica fora dos grandes centros.
Humor e crítica social
A presença de personagens ligados a programas de televisão permite ao filme trabalhar com diferentes escalas de humor. Interpretados por Jackson Costa, Frank Menezes, Arlete Dias, Alan Miranda e Wall Diaz, eles representam caricaturas de figuras associadas ao sensacionalismo e à simplificação de ideias sociais e políticas.
Na avaliação de Rosa, a caricatura funciona ao inverter a posição dos personagens. Henrique e Gustavo passam a ser vistos a partir da imagem que determinados grupos constroem para a sociedade, enquanto aqueles que ocupam um lugar hegemônico também se tornam caricaturas.
O diretor relacionou ainda o casarão onde Henrique vive à instabilidade da vida no Brasil, especialmente no campo das artes. A casa representa uma conquista material, mas também carrega as marcas de um passado ligado à escravidão. Mesmo em um momento de decadência, Henrique preserva a consciência sobre a história daquele espaço.
Câmera fixa para um personagem paralisado
A linguagem de Todo o Sentimento também se distancia da montagem de Ilha. Enquanto o filme anterior trabalhava com movimento, câmera na mão e cortes mais frenéticos, a nova produção mantém a câmera fixa no tripé durante quase toda a narrativa.
Rosa explicou que essa escolha acompanha a paralisia de Henrique e o momento histórico retratado. O filme utiliza planos abertos, com a solidão presente na composição. A câmera só volta a ser operada na mão na sequência da fogueira, quando a produção recupera uma aproximação com Ilha.
Para o diretor, os dois filmes dialogam com o mesmo personagem, mas a câmera acompanha fases diferentes de sua vida. Em Ilha, Henrique ainda tinha sonhos e vontade de mudar. Em Todo o Sentimento, ele aparece tomado pelo medo e sem coragem para transformar a própria situação.
Rosa também destacou a parceria com Aldri Anunciação, com quem trabalha em outros projetos. Ele citou a gravação da série de Café com Canela para o Canal Brasil e o filme dirigido por Aldri, no qual atua como produtor executivo. O diretor descreveu o ator e dramaturgo como um parceiro de longa trajetória e ressaltou o encontro dele com Lucas Leto, ligado ao Bando de Teatro Olodum.








