A perda progressiva da audição está no centro de 90 Decibéis, filme brasileiro criado e escrito por Julia Spadaccini e dirigido por Fellipe Barbosa. A produção acompanha Ana, uma advogada bem-sucedida que precisa reorganizar a vida pessoal, a maternidade e a carreira após o agravamento da surdez.
Produzido pelo Núcleo de Filmes dos Estúdios Globo, o longa marca a estreia de Benedita Casé Zerbini como atriz. Ela interpreta a protagonista, mãe de Theo, de sete anos. O elenco é majoritariamente formado por pessoas com deficiência e mães atípicas.
Na história, Ana já percebia alterações na audição quando se envolve em um acidente de trânsito com o filho no carro. Depois do episódio, ela entende que o problema está se intensificando. A personagem inicialmente rejeita o diagnóstico, mas passa a perceber que a adaptação envolve mais do que o uso de aparelhos auditivos.
A perda auditiva também interfere no trabalho. Em um ambiente social marcado pelo capacitismo, Ana perde o emprego e encontra dificuldades em um mercado pouco acessível às pessoas com deficiência. A trajetória começa a mudar quando ela consegue uma vaga em um posto acessível chefiado por Sidney, vivido por Leandro Ramos.
Nesse novo espaço, Ana conhece Regininha e Yara, interpretadas por Andrea Neves e Haonê Thinar. As relações construídas no trabalho ampliam a experiência da personagem e também abrem espaço para um novo amor.
Experiência da autora
Embora Ana seja fictícia, a construção da personagem incorpora elementos da trajetória de Julia Spadaccini. A autora recebeu, na idade adulta, o diagnóstico de perda auditiva bilateral neurossensorial progressiva. Oralizada, ela tem surdez profunda e usa aparelhos auditivos.
Julia explica que as histórias das duas não são iguais, mas que situações vividas por Ana foram inspiradas em experiências relacionadas à surdez. A autora também considera que algumas dessas situações são compartilhadas por outras pessoas surdas oralizadas.
Para Fellipe Barbosa, a proposta do filme está ligada ao ponto de vista da protagonista. A direção utiliza a câmera próxima dos personagens e na altura dos olhos, com planos fechados. A intenção é aproximar o público das pessoas, sem concentrar a experiência cinematográfica nas deficiências.
Elenco e acessibilidade
O elenco inclui Maurício Destri, Stefano Carta, Pedro Neschling, Bukassa Kabengele, Cleber Tolini, Pedro Fernandes e Jadson Abraão, além de Leandro Ramos, Haonê Thinar e Andrea Neves. Isabel Fillardis, Bel Kutner, Amaury Lorenzo, Yohama Eshima, Pedro Henrique França e Luciano Mallmann fazem participações especiais.
Segundo o produtor Mauricio Quaresma, cerca de 70% do elenco é formado por pessoas com deficiência. A presença desse grupo exigiu atenção à acessibilidade e ao conforto dos locais de gravação, além de mudanças na organização do set e no planejamento do ritmo das cenas.
A produção considerou o tempo de deslocamento dos participantes e as necessidades específicas da dinâmica de cada sequência. De acordo com Quaresma, a equipe criou uma logística para manter o período de filmagem de uma produção convencional, respeitando os envolvidos e ajustando o trabalho ao longo do processo.








