Animes que abordam depressão, isolamento, trauma, autolesão, luto e suicídio podem ajudar espectadores a reconhecer sentimentos difíceis, mas também gerar efeitos negativos em pessoas emocionalmente vulneráveis. A forma como essas histórias apresentam o sofrimento, suas consequências e a possibilidade de cuidado é central no debate.
A discussão ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio realizada ao longo de todo o ano. O dia 10 de setembro é marcado como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
Levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), com base em dados do DataSUS, aponta que as mortes por suicídio no Brasil passaram de 6.743 casos em 1996 para 16.751 em 2024, aumento de 148%. O recorde foi registrado em 2023, com 17 mil mortes. Cerca de 80% das vítimas são homens, enquanto adultos de 20 a 59 anos concentram quase dois terços dos casos. A faixa de 30 a 39 anos é a mais afetada, 62% das mortes ocorrem dentro de casa e o Sudeste reúne 33% dos óbitos em números absolutos.
Como o sofrimento aparece nas histórias
Em Wonder Egg Priority (2021), o suicídio está entre os temas centrais. A trama revela que Koito Nagase morreu por suicídio e apresenta outras personagens que também morreram dessa forma. Orange (2016) acompanha o suicídio de Kakeru, sua ideação suicida e uma tentativa, enquanto os protagonistas buscam impedir sua morte.
Given (2019) usa o luto como parte fundamental do desenvolvimento de Mafuyu, marcado pela morte de Yuki Yoshida, seu antigo namorado. Welcome to the N.H.K. (2006) aborda um pacto suicida e tentativas de suicídio, enquanto Paranoia Agent (2004) acompanha três pessoas que se conhecem pela internet e formam um pacto suicida.
Outras produções também associam o tema a trauma, solidão, manipulação e identidade. Aoi Bungaku Series (2009) apresenta tentativas de suicídio e um suicídio na adaptação de uma obra de Osamu Dazai. Myself; Yourself (2007) inclui duas tentativas de suicídio. Em Death Note (2006), Teru Mikami comete suicídio após a derrota de Light, e o poder do Death Note é usado para determinar mortes e suas circunstâncias.
Neon Genesis Evangelion inclui o suicídio de Naoko Akagi, mãe de Ritsuko, no passado ligado ao trauma da personagem. Serial Experiments Lain (1998) começa com a morte por suicídio de Chisa Yomoda e depois aproxima o tema da internet, do isolamento e da identidade.
Identificação pode ajudar ou aprofundar o sofrimento
Um homem de 31 anos, que vive com depressão e prefere não ser identificado, avalia que algumas obras mostram de forma profunda o afastamento social e a dificuldade de falar sobre o que se sente. Para ele, histórias assim podem ajudar a compreender sentimentos como vazio e isolamento, mas outras produções usam esses temas apenas para causar impacto, sem aprofundar as consequências.
Uma mulher de 22 anos, também não identificada, afirma que determinadas narrativas produzem sensação de acolhimento em períodos nos quais conversar com outras pessoas parece difícil. Ela diferencia obras que expressam o sofrimento por meio do silêncio e da ambientação daquelas que tratam o assunto de modo direto.
O estudante de 19 anos relata uma experiência diferente. Em alguns momentos, assistir a histórias com aquela atmosfera fez com que ele permanecesse imerso no sofrimento, em vez de se sentir acolhido. A distinção, segundo ele, está entre encontrar compreensão em uma obra e usá-la para alimentar o que já se sente.
Para a terapeuta cognitivo-comportamental Gabriela Ferreira Actis, essas representações podem contribuir para que alguém procure ajuda profissional. O risco aumenta quando comportamentos disfuncionais são apresentados como se pudessem resolver uma situação de sofrimento ou quando a narrativa cria uma falsa sensação de que tudo ficará bem.
As plataformas de streaming consultadas afirmaram seguir as normas de classificação indicativa do Ministério da Justiça. As obras disponíveis exibem classificações e descrições de conteúdo, inclusive sobre temas sensíveis, para informar o público antes da exibição.
O limite entre representação e romantização
Para os entrevistados, o contexto e as consequências mostradas pela obra ajudam a diferenciar uma representação cuidadosa de uma romantização. O sofrimento pode se tornar problemático quando aparece apenas como recurso para tornar a história mais intensa, sem mostrar seus efeitos nas relações, na rotina e na vida da pessoa.
O psicólogo João Pedro Carvalho Araújo, formado pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP) em 2022 e pós-graduado em Intervenções e Cuidados a Crises Suicidas, Psicologia Infantil e Psicologia Clínica, afirma que jovens podem ser mais permeáveis aos conteúdos expostos enquanto ego e identidade ainda estão em formação.
Segundo ele, a exposição contínua a cenas de violência e autolesão pode ser especialmente complexa para quem já enfrenta depressão ou ansiedade. Quando existe identificação com personagens, o conteúdo pode ampliar pensamentos, idealizações e ações destrutivas. O profissional ressalta que a discussão também envolve a maneira como a ação e suas consequências são apresentadas.
Em Mushoku Tensei, ele cita o sofrimento de Rudeus, marcado por isolamento, autodepreciação e uma tentativa de suicídio. Para João Pedro, a narrativa mostra o personagem deprimido e sustentado por um objetivo até encontrar validação e conseguir conviver com o que o entristecia.
O psicólogo também destaca que não há consenso absoluto na suicidologia. Parte da área defende uma exposição parcial e cuidadosa, enquanto outra parcela defende silêncio e sigilo nesses casos. Para ele, uma abordagem responsável deve relatar o acontecimento sem expor a forma e a causa, evitando gerar incentivos.
Histórias também podem apresentar cuidado
João Pedro cita One Piece como exemplo de uma narrativa em que o sofrimento não representa o destino final do personagem. Após a perda do irmão Ace, Luffy passa por choque, desespero e raiva, até ser interrompido por Jinbe, que o lembra das pessoas, responsabilidades e objetivos que ainda permanecem.
O psicólogo também menciona Fairy Tail, em que situações de sofrimento são enfrentadas por meio da união e do afeto entre personagens. Em Naruto, expressões como “poder da amizade” e “Conversa no jutsu” resumem momentos em que a conversa e a compreensão aparecem como alternativas à violência.
Para João Pedro, arcos de superação que mostram melhora na qualidade de vida e na saúde mental podem ter efeito positivo. A ficção, nesse sentido, pode oferecer referências para cuidados e resoluções não violentas.
Sinais de alerta e busca por apoio
O impacto negativo pode aparecer quando a obra deixa de ser entretenimento ou reflexão e passa a ocupar um lugar central na rotina. Entre os sinais citados estão isolamento profundo, fascinação obsessiva por conteúdos mórbidos, adoção das falas de personagens trágicos, apatia prolongada e mudanças bruscas nos hábitos de sono ou alimentação.
Gabriela Actis também menciona alterações de humor e comportamento, mudanças no ciclo de vigília, atenção e memória, aumento da ansiedade e isolamento social. Em caso de risco imediato, a orientação é procurar uma emergência.
O psicólogo recomenda que familiares e amigos intervenham diante da perda de esperança no futuro ou da permanência prolongada dos sintomas. Profissionais de psicoterapia devem considerar o risco à vida, a comunicação com a rede de apoio e o significado que a obra assumiu para aquela pessoa. A referência citada por ele é a Resolução CFP 10/2005.
O Centro de Valorização da Vida atende pelo 188, 24h por dia, em todo o país, além do chat em cvv.org.br. Também é possível procurar o Centro de Atenção Psicossocial mais próximo. Em uma crise imediata, a orientação é entrar em contato com o Samu pelo 192 ou buscar a Unidade de Pronto Atendimento mais próxima.








