A OnilX, empresa de criptomoedas que contou com a atuação pública de Paulo Guedes, foi alvo de uma ordem da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e enfrenta mais de uma centena de processos judiciais. Investidores afirmam que não conseguem resgatar recursos aplicados sob promessa de rendimentos de até 2,8% ao mês.
O grupo oferecia investimentos em criptoativos e stablecoins e divulgava a chamada alta liquidez. De acordo com relatos apresentados em ações judiciais, investidores entregaram milhões de reais à empresa e passaram a suspeitar de um esquema de pirâmide financeira depois que os resgates deixaram de ser pagos.
Guedes, ex-ministro da Economia, dava palestras e consultorias, recebia investidores e aparecia em materiais publicitários da OnilX. Também participava de reuniões estratégicas com parceiros comerciais e de eventos ligados à companhia. Ele não integra o quadro societário da empresa.
Em uma publicação de dezembro passado, o ex-ministro aparece ao lado de Fábio Lino, dono da OnilX, e de executivos da Visa. A legenda descreveu o encontro como uma reunião estratégica sobre o uso de stablecoins no cotidiano e afirmou que Guedes oferecia suporte e visão à empresa.
Investidores recorreram à Justiça
Um casal que entrou na Justiça para recuperar R$ 876.513,00 afirmou ter ampliado os aportes depois de participar de uma reunião com Guedes na sede da OnilX, em abril deste ano. Cerca de quatro meses depois, em agosto, os investidores tentaram sacar o dinheiro, mas não tiveram sucesso.
Em outro processo, uma empresa cobra o resgate de R$ 632.183,33 aplicados por meio da OnilX. Mensagens anexadas ao caso mostram uma assessora citando a presença de Guedes no escritório da empresa em São Paulo, na região da Faria Lima, como argumento para convencer o cliente a investir.
Guedes também elogiou a OnilX em uma palestra para uma plateia de quase 500 pessoas, formada por assessores e investidores. Não há registros sobre o conteúdo das reuniões privadas entre o ex-ministro, Fábio Lino e potenciais investidores.
CVM manteve ordem contra a empresa
Em 12 de janeiro de 2026, a Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários da CVM editou o Ato Declaratório nº 24.680 e determinou uma stop order contra a OnilX. A medida ordenou a suspensão imediata de ofertas públicas de serviços de intermediação de valores mobiliários, sob pena de multa diária.
A autarquia concluiu que a empresa não tinha autorização para intermediar valores mobiliários, atuar como assessora de investimentos ou captar recursos. Pareceres técnicos apontaram a oferta de contratos com promessa de rentabilidade fixa diária ou mensal e operações de arbitragem em moedas estrangeiras no mercado de balcão. Para a CVM, essas operações configuravam Contratos de Investimento Coletivo sujeitos à regulação federal.
A advogada Anne Caroline Marciquevik passou a representar a OnilX em reuniões com a CVM para tentar revogar a ordem. Ex-assessora especial de Guedes, ela se reuniu seis vezes com autoridades da comissão, conforme dados da Agenda Transparente, da ONG Fiquem Sabendo.
Em 1º de abril, o Colegiado da CVM rejeitou, por maioria de votos, o pedido de revogação da medida cautelar. Na mesma decisão, aprovou por unanimidade um pedido da empresa para esclarecer que a proibição não atingia a intermediação simples de criptoativos, como Bitcoin, Ethereum e USDT, quando não houvesse promessa de rendimento ou contrato de investimento.
Entre 12 de junho e o último dia 10 de setembro, foram identificadas 108 ações contra o grupo. Paulo Guedes e Fábio Lino foram procurados sobre a atuação do ex-ministro e as acusações feitas pelos investidores, mas não se manifestaram.
A OnilX afirma, em nota publicada em seu site, que é regular e confiável, tem CNPJ ativo, sede no Brasil e cerca de cinco anos de atuação no mercado de ativos virtuais. A empresa diz oferecer compra, venda, troca, intermediação e custódia de criptomoedas.
A companhia sustenta que a decisão da CVM se limita a operações caracterizadas como oferta ou intermediação de valores mobiliários. Segundo a OnilX, transações com Bitcoin, Ether e USDT sem promessa de rentabilidade ou contrato de investimento não estão incluídas na ordem. A empresa também afirma que não administra investimentos, não promete rentabilidade fixa e não oferece contratos de investimento coletivo.








