A inteligência artificial reúne conhecimento acumulado pela humanidade e já interfere em áreas como economia, medicina, guerra, pesquisa científica, cultura e arte. A tecnologia produz imagens, compõe músicas, escreve textos e desenvolve programas, enquanto redefine relações políticas, econômicas e culturais.
A questão central é que a IA não surgiu do nada. Seu funcionamento depende de um patrimônio intelectual construído ao longo de séculos, incorporado a algoritmos e ampliado pelo trabalho de programadores, cientistas e milhares de profissionais responsáveis por anotar dados, treinar modelos e moderar conteúdo.
Do conhecimento acumulado às plataformas privadas
A ideia de que o saber social poderia ser incorporado às máquinas foi antecipada por Karl Marx em 1858, quando o filósofo formulou o conceito de general intellect. A expressão identifica o conhecimento produzido coletivamente, incluindo linguagem, ciência e a experiência histórica da humanidade.
Nessa perspectiva, ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude expressam o resultado de pesquisas e descobertas associadas a nomes como Newton, Darwin, Einstein, Aristóteles, Freud, Marx, Copérnico, Maxwell e Turing. A inteligência artificial seria, portanto, uma materialização do conhecimento humano cristalizado em algoritmos.
O paradoxo está no controle desse patrimônio. O conhecimento construído ao longo dos séculos foi concentrado em plataformas privadas e transformado em mercadoria. O acesso ao saber passou a ser administrado por poucas empresas, que exploram economicamente uma construção coletiva.
A disputa pelo controle da inteligência artificial
A tecnologia poderia reduzir a jornada de trabalho, diminuir desperdícios e reorganizar a sociedade. Sob o domínio de grandes empresas de tecnologia, porém, ela pode ser usada para ampliar a exploração e concentrar riqueza. Os proprietários dessas companhias são descritos como uma burguesia digital, com controle sobre territórios e plataformas digitais.
Esse domínio não se limita aos meios de produção. As grandes empresas também controlam ferramentas de percepção, comunicação e reconhecimento social. Por isso, a inteligência artificial pode se transformar em instrumento de vigilância e controle, além de contribuir para desemprego estrutural, concentração de riqueza e autoritarismo tecnológico.
A permanência da IA sob uma lógica exclusivamente mercantil amplia a necessidade de discutir modelos públicos, acesso universal a sistemas treinados com conhecimento público e formas de governança internacional da tecnologia.








