Uma rede internacional de perfis, empresas de mídia e plataformas digitais publicou conteúdos pagos relacionados às chances de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição brasileira. Entre os envolvidos estão o Visegrád24, a UHN Plus, a plataforma de mercados de previsão Polymarket e o empresário espanhol Javier Negre.
Em 20 de setembro, o Visegrád24 publicou no X, para mais de 1 milhão de seguidores, que a chance de Flávio vencer a eleição estava subindo na Polymarket. A postagem trazia uma imagem do senador ao lado de Javier Milei e recebeu a indicação de parceria paga, posteriormente removida. O texto afirmava: “Se ele vencer, toda a América do Sul, exceto a Venezuela e o Uruguai, será governada por conservadores”.
A publicação ocorreu no mesmo dia em que a Polymarket informou que Flávio havia alcançado 58% no mercado de previsão. O conteúdo ultrapassou 100 mil visualizações. Em 30 de abril, o mesmo perfil havia divulgado que Flávio superara Lula nas cotações, com 43% contra 38%. A postagem também foi identificada como parceria paga e teve quase 100 mil visualizações.
Antes dos anúncios, o Visegrád24 entrevistou Flávio em fevereiro. Na conversa, o senador afirmou que o Brasil tinha “um presidente que apoia terroristas”. Em 2026, o perfil também publicou trechos de um discurso de Flávio em Jerusalém, em 27 de janeiro, e realizou a entrevista em 4 de fevereiro.
As conexões internacionais
A Polymarket é uma plataforma americana na qual usuários negociam contratos relacionados a possíveis resultados de eleições, esportes e outros acontecimentos. Os percentuais exibidos não correspondem a pesquisas eleitorais: representam o preço dos contratos negociados no mercado.
O acesso à plataforma foi bloqueado no Brasil em abril, porque a empresa não tinha autorização para operar no país. Desde junho de 2025, a Polymarket é parceira oficial do X para mercados de previsão. Em agosto de 2025, recebeu investimento do fundo 1789 Capital, do qual Donald Trump Jr. é sócio. Ele também passou a integrar o conselho consultivo da empresa.
Javier Negre é vice-presidente da UHN Plus Media Network, registrada na Flórida em novembro de 2025, e dono do La Derecha Diario. A UHN publicou ao menos nove posts relacionando Flávio às cotações da Polymarket desde 30 de março. Um deles, de 14 de abril, foi identificado como parceria paga.
Negre também mantém ligação com o Visegrád24. Em maio de 2025, a EDATV e o La Derecha Diario anunciaram uma parceria com o perfil para lançar uma edição em espanhol. A conta principal, em inglês, é mantida pela Intermarium Foundation. Em outubro de 2025, a UHN apresentou Visegrád24 Español, EDATV, Informa Radio e veículos de Negre como integrantes de uma aliança de mídia.
Fernando Cerimedo e Brad Parscale
Outra conexão passa pelo argentino Fernando Cerimedo, que foi sócio de Negre no La Derecha Diario. Em fevereiro, Cerimedo recebeu em Mar-a-Lago o prêmio de consultor político do ano, apresentado por Eduardo Bolsonaro. Na ocasião, Eduardo disse que venceria as eleições de outubro com Flávio e tiraria Alexandre de Moraes da Suprema Corte.
Cerimedo também agradeceu a Brad Parscale, ex-chefe da campanha de Donald Trump e criador da plataforma Campaign Nucleus. Em março de 2025, o argentino anunciou que representaria na América Latina as tecnologias da Campaign Nucleus e da EyesOver.
Registros americanos apontam que Campaign Nucleus LLC, EyesOver LLC e Clock Tower X LLC aparecem vinculadas ao endereço 3745 Medina Road, Unit C, Medina, Ohio, com variações na forma de registro. Cerimedo nega relação com a campanha de Flávio e afirma que seus vínculos com a UHN Plus, o Visegrád24 e a Polymarket são responsabilidade exclusiva de Negre.
Cerimedo está preso preventivamente na Bolívia. O Ministério Público boliviano o acusa de ser mandante de uma tentativa de feminicídio contra a ex-companheira Nadia Beller. A defesa nega. Ele também foi investigado no Brasil por alegações sem provas de fraude na eleição de 2022.
O que os registros mostram
As conexões entre os perfis, empresas e plataformas são documentadas por registros empresariais, documentos fiscais e publicações dos próprios envolvidos. No entanto, não foi identificado contrato entre essa rede e a candidatura de Flávio, nem prova de que mídia, plataforma de apostas e tecnologia eleitoral façam parte de uma única operação coordenada.
Também permanecem sem resposta perguntas sobre quem financiou especificamente os posts, quem escolheu Flávio como tema e se houve intermediários ou relação com fornecedores da campanha.
A legislação eleitoral brasileira permite propaganda paga na internet apenas nas hipóteses previstas em lei e proíbe que pessoas físicas ou jurídicas recebam vantagem econômica para publicar conteúdo político-eleitoral em seus próprios canais. O X informou ao TSE que manteria proibidos no Brasil anúncios políticos e de campanha.
A campanha de Flávio afirmou não ter conhecimento dos anúncios e negou relação formal com Cerimedo. A defesa do argentino também rejeita as acusações relacionadas ao processo na Bolívia. As demais empresas e pessoas citadas foram procuradas, mas não apresentaram manifestação.








