Joinville, Quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Brasil

Audiência pede retirada de 409 áreas de projeto sobre quiosques em Florianópolis

Após três horas de debate, vereadores sinalizaram que os 119 quiosques devem ser tratados separadamente das demais áreas públicas listadas no projeto.

Sob pressão imobiliária: entenda projeto de lei que prevê privatização de 528 espaços públicos de Florianópolis
Foto: Raphael Sanz/Sul21

A audiência pública sobre o projeto de lei 19.937/2026 terminou com o compromisso de retirar do texto 409 espaços públicos que haviam sido incluídos pela Prefeitura de Florianópolis. A proposta original também prevê a regularização de 119 quiosques, que enfrentam risco de desocupação e buscam segurança jurídica para continuar funcionando.

O encontro ocorreu na última terça-feira (8), na Câmara de Vereadores, e durou cerca de 3 horas. Ao final, o promotor Thiago Carriço se comprometeu a suspender as ordens de desocupação dos quiosques e conceder mais tempo para que os vereadores reformulem o projeto.

Projeto reúne quiosques e outras áreas públicas

O PL 19.937/2026 foi elaborado pela Prefeitura e já tinha relatório aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. O texto autoriza o Executivo Municipal a conceder, por outorga onerosa, bens e espaços públicos para exploração econômica pela iniciativa privada. A medida prevê a geração de receitas para o município e inclui uma lista de áreas anexada ao projeto.

Além dos 119 quiosques, a relação apresenta praças, parques, áreas de conservação, trechos de praias, estátuas e outros espaços. Movimentos sociais e comunitários criticaram a inclusão das áreas sem regras específicas para cada tipo de local.

O artigo terceiro do projeto determina que as concessões preservem a destinação pública dos bens, mantenham o livre acesso quando se tratar de espaços de uso comum e sejam compatíveis com as funções urbanística, social e ambiental. O texto também estabelece que a exploração econômica seja acessória ou complementar ao uso público e que parques, áreas verdes e equipamentos ambientais observem a legislação aplicável e as diretrizes dos órgãos técnicos.

Para as entidades presentes na audiência, essas regras são genéricas e deixam a definição das normas para depois da aprovação da lei. Zoraia Vargas, do Instituto dos Arquitetos do Brasil e do Fórum da Cidade, afirmou que a proposta deveria tratar exclusivamente dos quiosques e retirar os demais espaços da lista.

“Ganhamos tempo, mas não tem nada definido, tudo é possível”, declarou Vargas ao avaliar o resultado da reunião.

Mobilização antes da audiência

Cerca de duas horas antes do início da audiência, organizações comunitárias se reuniram em frente à Câmara. Participaram representantes do SOS Lagoa da Conceição, SOS Lagoa do Peri, SOS Parque da Luz, Parque de Coqueiros, Pacuca, do Campeche, e de outros bairros e comunidades.

Entre os manifestantes estava Gert Schinke, ambientalista que atua no coletivo Ecolhar. Ele criticou a possibilidade de empresas assumirem a gestão de locais públicos e relacionou a discussão aos Beach Clubs, que, segundo ele, passaram a restringir acessos tradicionais às praias.

O arquiteto e urbanista Leonhard Bravo, conhecido nas redes sociais como Drag Urbana, também participou do protesto. Ele citou a revitalização do Parque da Luz e afirmou que investimentos privados em áreas públicas podem beneficiar empreendimentos próximos. Segundo Bravo, a reforma do parque teria custo estimado entre R$ 1,5 e R$ 2 milhões, enquanto apartamentos diante do local poderiam alcançar valores de R$ 5 a R$ 10 milhões.

Representantes do SOS Parque da Luz, Paulo Nielsen e Janeide Capoani, defenderam que o espaço seja preservado como Área Verde de Lazer (AVL). Eles disseram que moradores participaram da criação e da manutenção do parque, que antes era um terreno abandonado.

Paulo Nielsen afirmou que parques, praças e orlas têm características e legislações diferentes e não deveriam ser reunidos em um único pacote. A associação também questionou a iluminação instalada no Parque da Luz, considerada excessiva por afetar a fauna do local.

Quiosqueiros pedem solução específica

A situação dos quiosques se arrasta desde meados de 2010, quando os responsáveis pelos estabelecimentos criaram a Aquif — Associação dos Quiosques de Florianópolis. Rodrigo Coelho, do Quiosque do Mozo, explicou que a categoria busca regularização porque trabalha em espaços públicos sem uma licitação formal.

Em 2025, o Ministério Público de Santa Catarina estabeleceu um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que determinava a regularização pela Prefeitura. Caso isso não ocorresse, a Promotoria poderia pedir a desocupação das áreas.

Durante a audiência, Carriço pediu rapidez na aprovação do projeto para evitar a execução das ordens judiciais contra os quiosques. A manifestação foi vaiada por parte das cerca de 100 pessoas que acompanhavam a sessão.

Os quiosqueiros afirmaram compreender as críticas dos movimentos sociais à inclusão das demais áreas públicas e defenderam que o problema da categoria seja separado da discussão sobre parques, praças e áreas de conservação. Para Coelho, os estabelecimentos têm importância para trabalhadores, empresários e para a população que utiliza esses espaços.

A audiência começou por volta das duas e meia da tarde. A vereadora Manu Vieira (PL), autora do requerimento, abriu o encontro. Também falaram o promotor Thiago Carriço, a secretária municipal de Licitação e Contratos, Katherine Schreiner, representantes da Aquif e integrantes de movimentos comunitários.

Ao longo da reunião, vereadores e participantes defenderam a retirada dos 409 espaços públicos do projeto. Zoraia Vargas avaliou que a decisão permite encaminhar a regularização dos quiosques de forma específica, mas afirmou que a mobilização contra a concessão das demais áreas continuará.

A Prefeitura ainda deverá reapresentar o texto após a discussão na Câmara. O projeto, portanto, não teve definição final durante a audiência.

Texto produzido pela Redação Jogo em Rede com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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