Joinville, Quinta-feira, 24 de setembro de 2026
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Nina Rodrigues: legado na perícia baiana convive com racismo científico

Homenageado pelo instituto médico-legal mais antigo da estrutura pericial da Bahia, médico deixou contribuições e teorias raciais rejeitadas hoje.

Nina Rodrigues: legado na perícia baiana convive com racismo científico
Foto: Arquivo Nacional

O nome de Raimundo Nina Rodrigues permanece ligado ao Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR), estrutura do Departamento de Polícia Técnica da Bahia (DPT-BA). O órgão realiza perícias em vivos e mortos, exames de lesões corporais, necropsias, identificação humana, antropologia, psiquiatria e odontologia legal, entre outros procedimentos.

Fundado em 1905 pelo professor Oscar Freire, o instituto recebeu o nome de Nina Rodrigues em homenagem ao professor catedrático de Medicina-Legal da Faculdade de Medicina da Bahia, que morreu em 1906, aos 43 anos. A instituição é a mais antiga dos cinco institutos que integram o DPT-BA.

Contribuição e contradição

Nascido no Maranhão em 1862, Nina Rodrigues construiu grande parte da carreira na Bahia. Professor da Faculdade de Medicina da Bahia, aproximou a medicina legal de áreas como antropologia física, psiquiatria e criminologia. Também defendeu uma participação maior da perícia médica em questões jurídicas e criminais.

Sua produção, porém, também foi marcada pelo racialismo científico. O médico sustentava que grupos humanos apresentariam diferenças biológicas e psicológicas capazes de influenciar comportamento, criminalidade e responsabilidade penal. Essas ideias ajudaram a conferir aparência científica a hierarquias raciais que hoje são consideradas racistas e sem fundamento científico.

Nina Rodrigues estudou criminalidade, loucura, religiosidade, costumes, relações raciais e população negra. Também acompanhou manifestações religiosas de matriz africana e participou de estudos sobre um surto de beribéri no antigo Asilo de Alienados São João de Deus, atual Hospital Juliano Moreira, em Salvador.

A relação de sua obra com a eugenia exige distinção histórica. O movimento foi formulado na Europa por Francis Galton no fim do século XIX e ganhou organização institucional no Brasil principalmente nas décadas de 1910 e 1920. Nina Rodrigues morreu antes desse processo, em 1906. Por isso, é mais preciso classificá-lo como representante do racialismo científico e da antropologia criminal de seu período, embora suas ideias sobre raça, miscigenação, degeneração e hereditariedade apresentassem afinidades com pressupostos que seriam incorporados posteriormente pela eugenia.

O caso de Antônio Conselheiro

Uma passagem simbólica de sua trajetória ocorreu após a destruição de Canudos pelo Exército, em 1897. A cabeça de Antônio Conselheiro foi levada para a Faculdade de Medicina da Bahia, onde Nina Rodrigues examinou o crânio.

A análise estava relacionada a teorias que buscavam identificar características psicológicas e predisposições criminosas a partir da estrutura craniana. Influenciado pela antropologia criminal de Cesare Lombroso, Nina havia publicado, em 1894, a obra As Raças Humanas e a Responsabilidade Penal no Brasil.

Apesar das expectativas associadas àquelas teorias, ele concluiu que o crânio de Conselheiro era normal. Pesquisas posteriores apontaram que o episódio também contribuiu para questionamentos sobre alguns pressupostos da craniometria. O historiador Filipe Monteiro definiu Nina como um “racialista vacilante”, em razão das tensões e mudanças identificadas em sua obra.

O nome na perícia atual

O IMLNR atua hoje com métodos contemporâneos e protocolos voltados à produção de provas para investigações e para a Justiça. A instituição realiza necropsias, exumações, identificação de cadáveres, antropologia forense, odontologia legal, sexologia forense e psiquiatria forense, além de participar da busca por pessoas desaparecidas.

Essas práticas não guardam relação com as teorias raciais defendidas no século XIX. Ainda assim, o nome de Nina Rodrigues permanece na instituição, reunindo duas dimensões de sua trajetória: a contribuição para a estruturação da medicina legal brasileira e a defesa de concepções raciais rejeitadas pela ciência contemporânea.

Estudar esse legado permite compreender como a ciência pode ser usada tanto para organizar conhecimentos e apoiar a Justiça quanto para legitimar hierarquias sociais. No caso de Nina Rodrigues, essa contradição continua inscrita na memória de um dos principais institutos da perícia oficial da Bahia.

Texto produzido pela Redação Jogo em Rede com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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