Perto dos 40, a narradora descreve uma transformação na relação com o próprio corpo. O ciclo menstrual ficou mais curto, o fluxo aumentou e os sintomas passaram a incluir períodos de depressão, fúria e irritabilidade. Essas sensações se prolongam até o fim do sangramento, quando o ciclo recomeça.
A ovulação, antes pouco percebida, também ganhou espaço nessa experiência. Nesse período, a narradora relata um desejo sexual intenso, associado principalmente ao contato com a literatura e com a teoria da literatura. A volta à Universidade aparece como o momento a partir do qual essa relação entre estudo, leitura, escrita e desejo começou a se manifestar com mais força.
A escrita surge, então, em disputa com o sexo. Há dias em que a narradora gostaria de escrever, mas só consegue pensar em transar. Ela menciona a presença de um companheiro em casa e descreve preferências sexuais que não colocam a penetração no centro da experiência. O teclado, as pontas dos dedos e o ato de apagar e refazer palavras também entram nessa linguagem de desejo.
O texto não mantém uma conclusão estável sobre a presença do outro. Primeiro, a narradora afirma dispensar o leitor e a companhia alheia, comparando essa escolha à preferência por estar sozinha durante o sexo. Logo depois, porém, reconhece que suas fantasias eróticas se dirigem a pessoas desconhecidas e que as autoras com quem trabalha participam desses devaneios. Uma frase bem construída ou uma imagem de intimidade pode despertar o desejo pela escrita.
No encerramento, ler e escrever aparecem como formas de tocar e expor zonas ainda desconhecidas. Sangue, suor, lágrimas, dor e prazer compõem uma imagem dos ciclos do corpo e da criação. A narradora termina perguntando quem está do outro lado dessa exposição íntima.








