Joinville, Quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Sul

LVC espalha o verme por Salvador entre pixo, roupas e resistência urbana

Artista clandestino criou uma figura reconhecida em Salvador e transformou o verme em assinatura visual, marca e produto comercial.

LVC espalha o verme por Salvador entre pixo, roupas e resistência urbana

Disfarçado e atento à movimentação de um prédio público, LVC escalou um barranco e levou menos de 15 segundos para refazer o desenho que o tornou conhecido: um verme de boca aberta e corpo formado por semicírculos. A intervenção foi feita durante o dia, em uma viga de cimento exposta de um imóvel da União.

O artista afirmou que o prédio estava abandonado e que a pichação também servia para chamar atenção para essa situação. A atividade, porém, é considerada crime de vandalismo. Por isso, LVC evita revelar informações pessoais, não divulga a idade, resiste a gravar entrevistas com a própria voz e usa a identidade social LVC Vandalismo. Ele se define como um pirata urbano.

Do pixo às roupas

LVC começou a fazer pixos com colegas de escola aos 12 anos. Desde 2009, vende camisas, calças, tênis, tapetes e quadros com o próprio trabalho. A partir de 2014, o verme passou a ser sua principal imagem. O desenho costuma aparecer gratuitamente à noite em diferentes pontos de Salvador, algumas vezes em ações com risco de morte.

A figura também alcançou pessoas que não conheciam o artista. A tradutora brasileira Paula Góes, que mora no exterior, encontrou o desenho em locais da Cidade Alta e da Cidade Baixa. Depois de ver uma pessoa usando uma camiseta com o verme, ela chegou à conta @lvcvandalismo no Instagram, encomendou roupas e conheceu o artista rapidamente.

Paula vestiu uma das camisetas no Burning Man, festival alternativo realizado no Deserto de Black Rock, em Nevada, nos Estados Unidos. Para ela, depois que alguém identifica o verme, passa a notar a imagem por toda a capital baiana. “Eu vi os vermes tanto nos pontos turísticos quanto na periferia, como se estivessem consumindo a cidade”, relatou.

LVC diz que não consegue viver da arte, mas afirma: “Viver, não, sobreviver. Dá pra pagar as contas”. Ele evita festivais de hip hop com pixos, embora ocasionalmente leve roupas para vender. Parte das peças é espalhada em um ateliê informal instalado em um prédio público. As camisas podem ser vendidas por R$ 250.

Uma marca reconhecida em Salvador

O empresário Tauan Caíque, que conhece LVC há mais de 12 anos, deixou de pichar com os amigos antes da morte de Jailson Galdino de Souza Santos, o Scank. A tensão nas ações noturnas e a notícia de que seria pai fizeram Tauan abandonar as atividades. Hoje, ele vende vinhos.

Scank foi morto a tiros aos 27 anos enquanto fazia uma pichação na madrugada de 13 de fevereiro de 2020, no Imbuí. O episódio levou outros integrantes do grupo a desistir. O próprio LVC contou já ter fugido de um vigilante e ouvido o clique do gatilho de um revólver, sem que o disparo fosse feito.

Tauan considera que o verme dialoga com a falta de planejamento urbano e com a presença de outdoors em Salvador. Na avaliação dele, a imagem representa algo que consome chão e cimento. O empresário também destaca o senso estético do artista e recebeu camisas para si e para os filhos.

O produtor cultural Maurício Galvão conheceu o hip hop nos anos 2000, quando participou da criação do Casarão Santa Luzia, na Avenida Jequitaia. Em 2011, ao criar o projeto Salvador Meu Amor, passou a reunir imagens de artistas soteropolitanos e recebeu diversos registros do verme espalhado pela cidade.

Maurício também acompanhou o perfil de LVC no Instagram e observou que a comunicação do artista fazia parte da própria obra, com pistas, deslocamentos e interação com o público. Para ele, a imagem funciona ao mesmo tempo como personagem, assinatura e marca territorial.

Pixo como linguagem de resistência

Roddolfo Carvalho, professor de Desenho da Escola de Belas Artes da Ufba e artista visual, vê no verme diferentes possibilidades de interpretação. O desenho pode representar um animal insaciável, que devora o que encontra, mas também se relaciona ao sentido que a palavra verme adquiriu em Salvador: o de uma pessoa preparada para sobreviver às adversidades.

O professor relaciona ainda o animal à fase larval, quando precisa se alimentar do que encontra, e às contradições da urbanidade soteropolitana. Para Roddolfo, pichação e grafite fazem parte da cultura hip hop, junto com o rap e o skate.

Ele explica que a pichação remonta a registros da Roma Antiga e ganhou uso organizado no Brasil em meados da década de 1960, durante a Ditadura Militar. Em Salvador, há registros de sua utilização como ato político na década de 70, sem necessariamente haver filiação partidária.

A curadora e professora Alejandra Muñoz, do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Ufba, entende o pixo como uma forma de escrita e comunicação de protesto contra o que está estabelecido. Para ela, trata-se de um gesto de resistência e de uma alternativa de expressão quando não há escuta.

Ainda ativo, LVC conhece rotinas e caminhos de alguns prédios públicos de Salvador, inclusive os horários de almoço dos vigilantes. Depois de concluir a pichação, ele deixou o imóvel e seguiu para fora, onde alterna ações clandestinas com a produção de peças que comercializa pelo Instagram.

Texto produzido pela Redação Jogo em Rede com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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