O historiador Sérgio Guerra Filho, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), afirma que uma comissão da Câmara dos Deputados tentou alterar trechos do livro Independências do Brasil antes de sua publicação. Segundo ele, foram sugeridas ou impostas mudanças de caráter ideológico, incluindo a retirada da palavra ditadura em referências ao período posterior ao Golpe de 1964.
Autor do artigo A Independência e o protagonismo popular, Guerra Filho é um dos 50 pesquisadores que participam da obra, editada com apoio da Associação Nacional de História (Anpuh). O livro foi encaminhado para publicação pela Edições Câmara, editora oficial da Câmara dos Deputados, e já estava diagramado, com ISBN e termos de concessão dos direitos autorais assinados.
De acordo com o historiador, uma comissão editorial criada para marcar os 200 anos da Câmara dos Deputados fez uma nova rodada de intervenções depois das revisões editoriais. Em diferentes trechos, a palavra ditadura teria sido substituída por regime ou governo, além da retirada de críticas ao governo ditatorial.
Trechos questionados
Guerra Filho também relata mudanças envolvendo referências ao Haiti, ao Marco Temporal e a um samba-enredo da Mangueira de 2019. O trecho relacionado ao carnaval mencionava a busca por uma história que não é contada e defendia a possibilidade de um outro Sete de Setembro.
O historiador questiona a legitimidade da comissão. Ele afirma que uma ordem de serviço identifica o deputado Lafayete Andrada (PL-MG) como presidente do grupo, mas que alguns parlamentares indicados como integrantes disseram aos organizadores que nunca haviam sido chamados para uma reunião. Para Guerra Filho, o pacote de alterações não teria sido discutido por um conselho colegiado.
Os organizadores e os autores decidiram denunciar o caso à imprensa e a alguns parlamentares. Na avaliação do professor, o livro não trata dos 200 anos da Câmara e a comissão não teria demonstrado legitimidade por não ter se reunido, conforme as informações recebidas pelos envolvidos.
Disputa sobre a memória da Independência
Para Guerra Filho, as mudanças refletem um incômodo com pesquisas que contestam a interpretação de que a Independência do Brasil foi resultado de um acordo entre as elites de Portugal e do Brasil. Ele afirma que o processo envolveu guerras e a participação de indígenas, descendentes de africanos, mulheres, pobres livres e outras pessoas comuns.
O professor relaciona essa abordagem ao Dois de Julho, data associada à Independência na Bahia. Segundo ele, a celebração preservou a narrativa de que o povo participou da guerra e venceu, enquanto a memória oficial teria dado maior destaque a figuras militares. Os trabalhos de Wlamyra Albuquerque, Hendrik Kraay e Fabio Baldaia, citados por Guerra Filho, mostram tentativas do Estado de diminuir ou encerrar as festas do Dois de Julho.
Na entrevista, o historiador também compara o mito do Sete de Setembro ao do Treze de Maio como formas de construir uma imagem de país pacífico, cordial, ordeiro e fraterno. Ele afirma que episódios como Palmares e Canudos, além de casos de feminicídio, racismo e violência contra a comunidade LGBTQIAPN+, entram em contradição com essa imagem.
Guerra Filho diz que seu próprio texto não sofreu rasuras. Segundo ele, as principais alterações atingiram conteúdos sobre a questão indígena, o Haiti e a ditadura militar. Na UFRB, o pesquisador Igor Almeida lançou o Dicionário Histórico e Biográfico dos Moradores da Heroica Cachoeira, obra que registra a participação de populares nas lutas de 25 de junho de 1822, que deram início ao enfrentamento aos portugueses.
Origem e futuro do livro
A proposta de Independências do Brasil nasceu do Blog das Independências, projeto da Anpuh e da revista Almanaque criado na época do bicentenário da Independência do Brasil. O blog reuniu textos de 50 especialistas de diferentes regiões, com análises sobre personagens, acontecimentos e representações do Sete de Setembro e da Independência.
Os textos foram usados por professores da educação básica na elaboração de planos de aula. Depois, os organizadores André Machado, Andreia Slemian e Claudia Chaves trabalharam para transformar o material em livro. A relação com a Câmara dos Deputados começou a ser construída em 2024, com a proposta de reunir textos curtos e abordagens diversas sobre a Independência.
Os organizadores ainda estudam os próximos passos. A intenção inicial é manter a publicação pela Câmara dos Deputados, mas Guerra Filho afirma que a obra poderá sair por outra editora caso isso não aconteça. O plano principal continua sendo a Câmara, onde o livro já estava editorado.








