O debate sobre políticas de diversidade nas universidades reúne críticas ao rigor acadêmico, defesa da inclusão e disputas sobre quem pode produzir conhecimento. O termo identitarismo, usado para definir pautas ligadas a raça, gênero, sexualidade e outros grupos, é rejeitado por professores que veem nele uma categoria acusatória ou um insulto político.
A discussão ganhou dimensão internacional após a morte de Jason Arday, professor negro da Universidade de Cambridge. Encontrado morto em sua residência em 14 de agosto, ele havia tido a carreira questionada por acusações de plágio e fraude feitas pelo professor norte-americano Nathan Cofnas. Em 2 de setembro, um editorial da revista científica Nature afirmou que o caso deveria provocar uma reação profunda. Políticos conservadores britânicos aproveitaram o episódio para questionar a política de diversidade da universidade, que em 2022 tinha 12,6% de professores não brancos.
No Brasil, a adoção de cotas raciais e de outras políticas inclusivas provocou reações de setores da sociedade. Também cresceram pesquisas sobre gênero, sexualidade e raça, além do uso de linguagem neutra e da ampliação da sigla LGBT para LGBTQIA+. Conceitos como colorismo, decolonialismo, lugar de fala, sexualidade fluida, transgênero e cisgênero passaram a aparecer em grupos de pesquisa, dissertações e teses.
Disputa sobre o termo
Maíra Kubick, professora do Departamento de Gênero e Feminismo da Ufba, afirma que identitarismo é usado para desqualificar reivindicações de negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e mulheres. Para ela, as experiências de gênero, raça, sexualidade e classe ajudam a revelar desigualdades sociais, e a internet 2.0 ampliou a circulação desses relatos e fortaleceu movimentos sociais.
Leandro Colling, especialista em estudos de gênero e sexualidade, prefere os termos maioria silenciosa e interseccionalidade. Ele considera um “equívoco brutal” usar identitarismo para classificar movimentos de extrema-direita e de esquerda. O professor também associa o crescimento da representatividade ao aumento do rigor acadêmico, por questionar perspectivas coloniais, eurocêntricas, misóginas, heterossexistas e cisgêneras.
O conceito, originalmente, foi usado por grupos xenófobos europeus após a Segunda Guerra Mundial, defensores de uma Europa branca e sem miscigenação ou integração a outras culturas. No debate atual, porém, passou a designar políticas voltadas a grupos específicos, embora seja recusado por muitos dos que defendem essas pautas.
Conflitos dentro e fora da universidade
Na Faculdade de Comunicação da Ufba, uma aluna trans acusou uma professora de transfobia após reclamar do tratamento recebido em sala de aula. O episódio chegou ao debate público. Em outra ocasião, durante uma confusão promovida por um deputado estadual de extrema-direita e seus assessores, a equipe do parlamentar fotografou portas de mictórios com sinalização inclusiva e retomou a chamada “pauta dos banheiros”.
O diretor da faculdade, Washington Souza Filho, afirmou que a sinalização, que também inclui piso tátil, foi instalada com recursos de emendas destinadas por Alice Portugal e João Roma.
O ator Wagner Moura criticou parte do movimento, enquanto o intelectual Antonio Risério publicou livros sobre o identitarismo e a esquerda identitária. Fernando Conceição, professor de jornalismo da Universidade Federal da Bahia e um dos pioneiros na defesa das cotas raciais no Brasil, considera o termo uma armadilha. Para ele, a luta por representação é legítima, mas pode desviar a atenção de questões econômicas mais amplas.
Conceição também critica o que identifica como declínio do rigor acadêmico nas universidades brasileiras, iniciado, em sua avaliação, nos anos 1970. Ele não relaciona esse fenômeno à diversificação dos acadêmicos e afirma que, nas ciências sociais e humanas, novos termos podem reapresentar questões antigas.
Maíra Kubick argumenta que as teorias feministas questionaram a ideia de neutralidade científica. Já Conceição aponta uma tendência autoritária e agressiva entre parte dos militantes identitários, que, segundo ele, classificariam como conservador ou de direita quem discorda de suas posições.








