A Refinaria de Mataripe recebeu cerca de R$ 4 bilhões em investimentos desde 2021 e se prepara para operar próxima dos 300 mil barris de petróleo por dia, segundo Marcelo Lyra, vice-presidente de Relações Institucionais, Comunicação, ESG e Desenvolvimento Territorial da Acelen.
O executivo afirma que a unidade passou a produzir mais perto de sua capacidade máxima de forma contínua, com melhora nos indicadores ambientais. Entre os resultados citados estão a redução do consumo de água, equivalente ao consumo de uma cidade de 80 mil habitantes, e a diminuição do uso de energia em volume equivalente ao consumo residencial de Roraima. A refinaria também reduziu resíduos sólidos e ampliou o uso de água de reúso.
Em 2025, Mataripe processou cerca de 95 milhões de barris de petróleo, com média de 280 mil barris por dia. A modernização ocorre durante paradas de manutenção realizadas por blocos. Uma nova parada, prevista para o ano que vem, deverá gerar entre 4 mil e 5 mil empregos e contribuir para o aumento da confiabilidade, da produtividade e da competitividade da unidade.
A chegada aos 300 mil barris por dia, porém, dependerá também das condições econômicas. Lyra afirma que a capacidade produtiva estará disponível, mas a operação nesse nível dependerá da possibilidade de vender os derivados a preços competitivos no mercado do Nordeste, da Bahia, do norte de Minas e de parte do Centro-Oeste.
Mercado e abastecimento
A Refinaria de Mataripe responde por 80% da capacidade de consumo da Bahia e por 42% do Nordeste. A Acelen aguarda autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para ampliar a produção de diesel. Segundo Lyra, a planta está pronta para iniciar essa expansão, que está submetida à agência há três meses e meio.
A política de preços da empresa tem como referência o mercado internacional e a paridade de importação. O executivo afirma que o Brasil é estruturalmente importador de diesel e gasolina e que a Acelen compra petróleo a preços internacionais. Para ele, vender abaixo dessa referência pode gerar prejuízo, enquanto preços superiores reduzem a competitividade e a participação no mercado.
Lyra também defende igualdade nas condições de acesso ao petróleo para as refinarias privadas. Segundo ele, a Petrobras responde por 60% do refino brasileiro, enquanto o refino privado representa 20% e as importações, os 20% restantes. A Acelen teria 14% do segmento privado.
Sobre uma possível recompra de Mataripe pela Petrobras, o vice-presidente disse que a decisão cabe ao acionista. Ele afirmou que não considera o momento aquecido o suficiente para indicar que uma venda esteja próxima.
Novos produtos e energia renovável
A Acelen ampliou o portfólio da refinaria para mais de 30 produtos. A estratégia, segundo Lyra, é combinar eficiência operacional, flexibilidade e produção voltada a mercados de maior valor agregado. A empresa também busca transformar resíduos em produtos com valor econômico.
O Solar Park I passou a suprir 100% da demanda externa de energia elétrica de Mataripe. O parque tem 161 MW de capacidade e recebeu investimento de R$ 400 milhões. Para a Acelen, o projeto reduz a pegada de carbono da produção de combustíveis e pode trazer ganhos de competitividade energética no médio e longo prazo.
A Acelen Renováveis desenvolve ainda uma biorrefinaria para produzir 1 bilhão de litros anuais de SAF e HVO a partir da macaúba. O projeto prevê investimento de 3 bilhões de dólares, com efeito econômico estimado em 40 bilhões de dólares ao longo de 10 anos e geração de 85 mil empregos diretos e indiretos no período.
A empresa já implantou o Agripark, centro tecnológico localizado em Montes Claros, e iniciou a aquisição de fazendas para o cultivo da macaúba. O projeto prevê o plantio de 144 mil hectares e cinco núcleos produtivos entre o Recôncavo baiano e o norte de Minas. A biorrefinaria, construída ao lado de Mataripe, tem inauguração prevista entre abril e maio de 2029.
Até que a macaúba alcance a produção necessária, a unidade poderá utilizar outros óleos, como os de soja, milho, canola e carinata, além de gordura animal. A meta final da empresa é operar com 100% de macaúba.
Lyra afirma que o projeto de biocombustíveis equivale a uma refinaria de 20 mil barris de diesel por dia. Considerando uma produção de 300 mil barris e uma participação de cerca de 30% de diesel, ele estima que esse volume corresponda a aproximadamente um quarto da produção de diesel associada à Refinaria de Mataripe.
Sobre o futuro do setor energético, o executivo avalia que o petróleo continuará relevante por muitos anos, enquanto os biocombustíveis e outras fontes de baixo carbono ganharão espaço conforme avancem a regulação, os incentivos e a demanda global por energia.








