VINHEDO — O acidente envolvendo a administradora Julia Rimoli Bossoni, de 28 anos, na montanha-russa Montezum, do Hopi Hari, colocou em evidência a intensidade das forças às quais passageiros podem ser submetidos em atrações desse tipo. A física aplicada ao brinquedo tem relação com situações enfrentadas por pilotos de Fórmula 1, embora a força seja distribuída de maneiras diferentes.
A força G é uma medida do impacto da aceleração sobre o corpo quando há mudanças rápidas de velocidade ou direção. Em condições normais, uma pessoa está submetida a 1G, correspondente à ação da gravidade da Terra.
Quando um veículo acelera, freia ou faz uma curva fechada, o corpo tende a manter o movimento anterior por causa da inércia. A pressão sentida contra o banco ou o cinto representa o aumento da força G. Em 2G, o corpo parece pesar o dobro do normal. Em 3G, a sensação é de que ele pesa três vezes mais. Uma pessoa de 60 kg, por exemplo, sentiria no corpo e nos órgãos uma carga equivalente a 180 kg.
Força G em brinquedos e carros de corrida
A intensidade também pode aparecer quando há aceleração para cima ou para frente, além de frenagens bruscas. Em uma curva, um piloto de 85 quilos pode sentir uma força de até 425 quilos empurrando-o para o lado oposto. Como o corpo está preso ao banco pelo cinto, a pressão maior é exercida sobre o pescoço.
Na Fórmula 1, a força G ocorre principalmente nos eixos horizontais, porque as pistas têm poucas mudanças de elevação. Nas montanhas-russas, os passageiros podem sentir forças de baixo para cima, de cima para baixo, nas laterais e para frente.
A Shock Wave, do parque Six Flags, em Arlington, nos Estados Unidos, é a montanha-russa em atividade que registrou a maior intensidade, com 5,5 G. Entre atrações desativadas, a Moonsault Scramble, em Fujiyoshida, no Japão, superou 6 G.
Em curvas de alta velocidade, pilotos de Fórmula 1 são submetidos a forças entre 5 g e 6,5 g. Durante uma batida, a intensidade pode ser dezenas de vezes maior. O piloto Gabriel Bortoletto sofreu dois impactos no Autódromo de Interlagos, de 34 G e 57 G, e saiu sem ferimentos. A categoria utiliza tecnologias de segurança para situações desse tipo.
Não há registro da quantidade de Gs a que Julia Rimoli foi submetida.
O acidente no Hopi Hari
Julia viajou com o namorado, João Pedro, para Vinhedo, em São Paulo, em abril deste ano. Durante a visita ao parque, os dois foram duas vezes à Montezum, atração de madeira com cerca de 42 metros de altura e velocidade máxima de 103 km/h.
Na primeira passagem, o casal deixou o brinquedo sem problemas. Na segunda, quando o carrinho voltou à plataforma, Julia estava desacordada e convulsionando.
Ela foi levada à Santa Casa de Vinhedo e depois encaminhada à Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Exames apontaram hemorragia intracraniana e edema cerebral, e os médicos diagnosticaram traumatismo cranioencefálico (TCE).
O laudo médico indicou que o quadro pode ter relação com os movimentos rápidos da cabeça durante o passeio, causados pelas mudanças de velocidade e pelos giros. Conforme a família, Julia perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo, passou a ter problemas de memória e apresentou dificuldades na fala.
A administradora ficou quase dois meses internada. O MP-SP abriu uma investigação e solicitou uma perícia na montanha-russa. O procedimento ainda está em andamento.
Posicionamento do parque
O Hopi Hari afirmou que a Montezum tem certificação internacional e passa por inspeções anuais. O parque também declarou que a atração segue as normas nacionais de segurança para parques de diversões.
Segundo a administração, há placas e avisos sonoros sobre os riscos do brinquedo, classificado como radical. Sobre o caso, o parque informou que prestou atendimento imediato, acompanhou a internação e custeou as despesas médicas.







