A trajetória de Vicente Barreto nasceu entre o povoado de Salgadália e Serrinha, na Bahia, e foi construída a partir da memória musical do interior, do violão aprendido sozinho e de parcerias que atravessaram décadas. Aos 76 anos, o compositor continua tocando diariamente e já pensa no próximo disco, mesmo depois de lançar um trabalho recente.
A música entrou de forma decisiva na vida de Vicente aos 10 anos. Antes disso, porém, o ambiente familiar já era marcado pelo instrumento: o pai tocava violão, assim como o avô. Sem professor de música ou de violão, ele desenvolveu a própria maneira de tocar. Em meados dos anos 1960, passou a ser conhecido em Serrinha como o menino do violão, apresentando na praça principal as canções da época e tirando as melodias de ouvido.
Entre a sanfona e a bossa nova
Na adolescência, Vicente acompanhou a popularidade da Jovem Guarda, de Roberto Carlos e do iê-iê-iê, mas sua formação também veio da sanfona ouvida em Serrinha e das músicas de Luiz Gonzaga e de outros conjuntos nordestinos. “Eu criei uma coisa minha, uma levada muito independente”, lembra.
A descoberta de João Gilberto provocou uma mudança em seu caminho. A voz, o violão e as canções de Tom Jobim fizeram com que ele se dedicasse ainda mais ao instrumento, tentando compreender acordes que considerava diferentes. Depois, o contato com a obra de Gilberto Gil ampliou suas pesquisas sobre a música produzida na Bahia e no Brasil.
Com a coleção de discos de um amigo de Salvador que havia morado em Serrinha, Vicente conheceu Caetano Veloso, Edu Lobo, Bob Dylan e outros artistas. Também tocou em conjuntos de baile antes de seguir para o Rio de Janeiro. Foi nesse período que começou a criar as próprias músicas, embora ainda não chamasse esse trabalho de composição.
A aproximação com Caetano ocorreu por meio de amigos em comum. Vicente passou a frequentar a casa do cantor, em Ondina, e a apresentar suas criações. Caetano começou a chamá-lo de Serrinha, em referência à cidade onde foi criado. Vicente, por sua vez, passou a chamar o cantor de Santo Amaro.
Caetano também organizou o encontro de Vicente com Gilberto Gil. O baiano levou o violão e tocou suas músicas. Ao ouvir que ele não havia tido professor, Gil respondeu: “É assim mesmo. Tem uns que já vêm assim”.
Do Rio de Janeiro a São Paulo
O produtor Roberto Santana, natural de Irará, teve papel importante na entrada de Vicente no mercado profissional. Ao preparar um disco do Quinteto Violado, pediu que o compositor apresentasse uma música e escolheu Baião do Quenji, parceria com Fábio Paes, para o álbum Berra Boi.
Santana também levou uma fita de Vicente ao Rio de Janeiro e mostrou a gravação a Roberto Menescal. O interesse de Menescal contribuiu para a ida do músico à cidade, onde ele participou da gravação do Quinteto Violado, lançou um compacto e viajou com o grupo pelo Norte e Nordeste.
Por sugestão de Roberto Santana, Vicente seguiu para São Paulo, onde vive há 56 anos. Na capital paulista, recebeu o Título de Cidadão Paulistano em 2024 e criou parte das músicas que definiram sua trajetória.
Em 1980, enquanto trabalhava em seu primeiro LP, Vicente começou a desenvolver uma ideia ao violão, em casa, durante uma manhã. Era Morena Tropicana. A música foi apresentada a Alceu Valença, que participou da construção da letra e ajudou a canção a ganhar as referências e imagens que se tornariam conhecidas pelo público.
Parcerias que atravessam gerações
Depois da repercussão de Morena Tropicana, Vicente seguiu trabalhando com diferentes compositores e intérpretes. Em um show dividido com Zeca Baleiro, seu repertório já reunia parcerias com Paulo César Pinheiro, Vinicius de Moraes e Hermínio Bello de Carvalho.
Celso Viáfora é um de seus parceiros mais duradouros. A relação começou na música e se estendeu à convivência familiar. Os dois moram no mesmo prédio, os filhos se conhecem e as famílias convivem. Segundo Viáfora, são mais de 40 anos compondo juntos, e quase todos os discos de sua carreira têm ao menos uma parceria com Vicente.
Osmar Lazarini, o Sonekka, conhece Vicente desde o fim dos anos 1980. A convivência pessoal se intensificou no início dos anos 2000, por intermédio do letrista Zé Edu Camargo e de amigos em comum. De uma melodia enviada por Vicente surgiu Na Força e na Fé, faixa que deu nome ao álbum homônimo, além de Só Eu e o Sol.
A parceria mais recente envolve Zeca Baleiro. Ainda nos anos 1980, quando adolescente, Zeca assistiu a apresentações de Vicente no Maranhão. O encontro pessoal ocorreu mais tarde, em um show no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Após anos sem contato, os dois voltaram a trabalhar juntos durante a pandemia, à distância.
Vicente enviava melodias e Zeca respondia com letras. “Fizemos 40 músicas”, conta o compositor baiano. Desse conjunto, 12 foram escolhidas para Sembal, álbum produzido por Rafa Barreto, filho de Vicente.
Para Vicente, a dedicação cotidiana mantém vivo o espírito do menino que tocava na praça de Serrinha. “Eu nasci artista”, afirma.








