Um contrato de advocacia de R$ 427 milhões, condicionado ao êxito em ações judiciais, aparece em arquivo enviado pela Polícia Federal a ministros do Supremo Tribunal Federal. O acordo envolvia interesses de Daniel Vorcaro e precatórios que poderiam render R$ 8,5 bilhões ao Banco Master.
O documento e mensagens extraídas do celular de Vorcaro foram encaminhados ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do Caso Master, em julho. Na última semana, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes exigiram acesso à íntegra do material, diante de suspeitas de que Mendonça teria concentrado a análise em Alexandre de Moraes e deixado de lado referências a outros ministros. Mendonça nega direcionamento.
As mensagens mostram que assessores de Vorcaro usavam a expressão “turma do KN” para se referir ao desembargador Newton Ramos, do TRF-1, e à mulher dele, a advogada Camilla Ramos. O documento identifica “KN” como uma referência ao ministro Kassio Nunes Marques.
O contrato e os precatórios
O escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, ligado a Camilla Ramos, foi contratado pelo Master para atuar em 12 processos relacionados a indenizações decorrentes do controle de preços do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool. O banco aparece nos documentos como credor ou cessionário dos créditos.
O contrato previa honorários de 5% líquidos sobre o valor recebido pelo banco. Pelo valor de face das causas, a remuneração chegaria a 427 milhões de reais em caso de êxito. O pagamento deveria ocorrer até cinco dias depois da obtenção dos ganhos. O acordo também autorizava o escritório a receber diretamente da União a parcela dos honorários e a inscrever precatórios em seu próprio nome.
As ações tramitavam em instâncias inferiores e poderiam chegar a tribunais superiores. Uma decisão da Segunda Turma do STF serviria de referência para os demais julgamentos sobre os precatórios de usinas de cana-de-açúcar.
Nas mensagens, Camilla Ramos comemorou o voto de Kassio Nunes Marques em um desses julgamentos. Nunes Marques, Dias Toffoli e Edson Fachin votaram pelo reconhecimento do débito. Gilmar Mendes e André Mendonça divergiram e foram vencidos. O ministro havia declarado impedimento, mas depois mudou de entendimento.
“É um excelente voto do Min. Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização”, escreveu Camilla Ramos a Vorcaro.
Pedidos de hospedagem e viagens
As conversas também registram pedidos de hospedagem no hotel Fasano, entradas para a Fórmula 1, acesso a eventos no Rosewood, viagens de avião e camarote na Sapucaí. Em uma mensagem, um auxiliar de Vorcaro informou que Newton Ramos havia solicitado uma reserva no Fasano Itaim para o ministro. Depois, uma assessora encaminhou o pedido atribuído ao desembargador, identificando Kassio Nunes Marques.
Vorcaro autorizou o pagamento da diária. A expressão “turma do KN” reaparece em mensagens sobre nomes para uma lista de camarote e sobre outra reserva no Fasano Itaim, que ele também autorizou faturar para a Prime.
Durante o Carnaval de 2025, uma mansão no Joá, no Rio de Janeiro, foi reservada para receber o ministro, identificado nas conversas como “KN”. O imóvel, pertencente ao ator Márcio Garcia, foi alugado por R$ 1,45 milhão durante uma semana. As mensagens mencionam bebidas, passeios de helicóptero, camarotes e uma feijoada para cerca de 40 convidados.
Também há registros de ajuda na organização de uma viagem de 10 dias para cinco pessoas e de deslocamento em jato particular para o aniversário de Camilla Ramos, em Maceió.
O que dizem os envolvidos
Newton Ramos afirmou que é casado com Camilla Ramos e que ela atua em causas cíveis para o Banco Master. Disse ainda que mantinha relação pessoal com Vorcaro antes dos fatos investigados e que, por participação na empresa Prime You, o empresário foi consultado sobre imóveis e transportes. O desembargador declarou que nunca julgou causa de interesse do Banco Master.
A defesa de Kassio Nunes Marques negou que o ministro tenha votado a favor de Vorcaro ou do Banco Master, trocado mensagens com o banqueiro ou feito pedidos a ele. Também afirmou que Nunes Marques estava impedido no processo sobre a usina por ter decidido o caso como vice-presidente do TRF-1, mas depois entendeu que o impedimento não se aplicava por se tratar de uma tese ampla.
Segundo a manifestação, o ministro pediu a correção do registro e votou porque a discussão poderia alcançar diversas empresas, e não apenas o Banco Master.







